O Golpe Militar de 1964 no Brasil

As lutas de classes chegaram ao ponto mais agudo. Valia tudo, até mesmo calúnias e baixíssimo nível. Madames subiam às favelas para alertar que "com Jango, em breve o comunismo vai mandar no Brasil. Aí, o Estado vai tomar tudo dos pobres, inclusive os filhos, que serão enviados para Moscou e nunca mais voltarão".
Panfletos espalhavam que Jango baixaria um decreto ordenando que os moradores dividissem seus apartamentos com os favelados. Os famintos desceriam o morro aos gritos de "isso aqui é nosso!" para ocupar as casas das pessoas de bem.
Jango resolveu apresentar sua última carta: as reformas de base teriam de passar "por bem ou por mal", como se dizia. No dia 13 de março de 1964, apesar do feriado decretado de surpresa pelo governador Lacerda, um oceano de centenas de milhares de pessoas compareceram ao célebre Comício da Central do Brasil.
No Comício João Goulart anunciou que estava enviando ao Congresso as primeiras reformas de base: expropriação de latifúndios improdutivos, nacionalização das refinarias de petróleo. A galera foi ao delírio de felicidade, sem ter noção de que em duas semanas Jango seria derrubado.
Meia dúzia de dias depois foi a vez da classe média paulista dar o troco. Associações de donas de casa, esposas de maridos com altos vencimentos mensais, damas da sociedade, pastores evangélicos, comerciantes, policiais, bicheiros, e demais organizações representativas mobilizaram milhares de fanáticos nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Rezavam para que Deus preservasse os nossos valores: o latifúndio, as contas bancárias, etc.
O toque final foi provocar as Forças Armadas. Os marujos da Marinha de Guerra criaram uma associação para defender seus interesses, quase um sindicato. Coisa absolutamente proibida pelos comandantes. Pois o ministro da Marinha proibiu que os marinheiros comemorassem o segundo aniversário de sua associação. Mesmo assim, eles fizeram a festa, lá na sede do sindicato dos metalúrgicos do Rio de Janeiro. Para puni-los, deslocaram-se fuzileiros navais para a área. Mas em vez de prender os marinheiros, confraternizaram-se. Por fim os marinheiros se renderam porque tiveram a promessa de anistia (perdão) de Jango, que foi cumprida. As Forças Armadas jamais perdoariam o presidente por ter permitido o desrespeito à hierarquia militar.
Em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho precipitou o golpe. Tinha o apoio do governador mineiro Magalhães Pinto. Na Guanabara, Lacerda entrincheirou-se no Palácio da Guanabara, aguardando o ataque dos fuzileiros navais liderados pelo comandante Aragão. Não houve ataque nenhum.
Jango voou de Brasília para Porto Alegre. De lá, percebeu que a resistência faria correr o sangue dos brasileiros. Preferiu se exilar no Uruguai.
Mas antes mesmo de renunciar, o senador Auro de Moura Andrade já anunciava o novo presidente: Ranieri Mazzili, da Câmara dos Deputados.
No momento em que os militares deram o golpe, havia uma força tarefa da Marinha de Guerra norte-americana rumo à costa brasileira, incluindo porta-aviões, fragatas com mísseis, fuzileiros, etc. Se o golpe não fosse vitorioso, nossos amiguinhos ianques dariam uma força para os generais patrióticos verde-amarelos.
Os militares tinham o projeto de mudar o Brasil profundamente. Por isso, chamaram o golpe de "Revolução de 1964". Mas uma verdadeira revolução só acontece quando se muda radicalmente a estrutura econômica e política da sociedade.
No Brasil, a estrutura econômica continuou a mesma: capitalismo, latifúndios, forte presença do capital estrangeiro. Na estrutura política, o principal foi preservado: a burguesia continuava no poder. Apenas não o exercia diretamente, mas sob a proteção dos militares.
Os militares foram os executores. Fizeram o serviço pesado. Mas os principais beneficiados com o regime militar foram os grandes empresários. Eles eram ministros, assessores, secretários. Viviam nos gabinetes em Brasília, pedindo favores, aconselhando, pressionando militares.
Na verdade, o regime militar foi uma ditadura militar e civil. Porque os civis foram a maioria dos governadores e prefeitos de capitais, havia um partido político que apoiava o regime (a Arena) e os ministros da área econômica eram todos civis.
Esse golpe pôs fim a um período democrático da história brasileira, marcado pela tentativa de um desenvolvimento econômico mais autônomo.

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